Valérie

>> quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009


Descobri este filme recentemente, via Cherry Blossom Girl, e se tornou o meu mais novo encanto cinematográfico.

O filme é estranho, é sombrio e ao mesmo tempo leve. Começa daí a estranheza. Eu adouuuro processos de estranheza. Coisas que te conquistam no ato são maravilhosas e tornam a vida mais delíciosa e fácil. Mas uma certa dificuldade abre nossos frames, if you know what I mean.


É basicamente, numa analogia bem euzinha, como ler Clarice, porque não é fácil. Se ri muito, se chora, nem que seja por dentro, se reconhece, se estranha, daí ou ao amor ou ao ódio supremo. Porque quem odeia Clarice Lispector odeia com muita força, assim como quem ama, como eu.

Voltando, e Valérie é o tipo de filme que mexe com o que está quieto.

Bem antiguinho, 1970, do cinema tcheco. Não me recordo de ter assistido a outra produção theca na minha vida, no máximo parcerias que não vou recordar.

O filme é baseado num livro de Vítězslav Nezval, que nunca ouvi falar, lógico, mas que me despertou uma curiosidade atroz. Uma "estória" (pra lembrar, sempre, do Rosa) tecida em escrita que por sua vez traz muito da mitologia, crenças e lendas do povo eslavo.

Eu que amo contos de fadas de todos os cantos reconheci várias referências. Já falei que amo estórias de "Shee banshee" (contos de fadas) apenas às adaptações dos compêndios de Grimm, Anderson, Perroult. Li muito sobre o pequeno povo (ou fadas) e sendo curiosa como sou, não me conformei só com os mais conhecidos, fui aos romenos, indianos, japoneses e os eslavos, cheios de fantasmas, vampiros (que as vezes eram até retratados como fadas) e jovens incautas e/ou louquinhas.

E é essa, basicamente, a essência do enredo de Valérie and her week of wonder (ou Valerie a týden divu, seja lá como se pronuncia).

Uma jeune fille (mocinha), delicada, quase uma criança, quase uma fada de Froud, que em delírios de descoberta de si, como quase mulher, mergulha em um mundo que é pura imagética aterrorizante. Porque descobrir-se assusta.

O filme não tem uma sequência convencional, é difícil de narrá-lo. É pra se ver. E é de encher os olhos. Muito estético dentro do seu caráter insólito. É metafórico e onírico. Um deleite pra quem gosta de sonhar e se encontar com o belo em outra perspetiva.

Li algumas coisas sobre o filme. Opinião alheia é sempre boa para reforçar um alicerce e o achismo d'outrem é por vezes deveras esclarecedor em vários aspectos. Fala-se um pouco de alusão política, o que não concordo, é meio que forçação de barra e exaltação à alegorias. Fala-se muito de um certo manto de pedofilia. Não é bem assim, o filme é pautado num plano onírico, como falei, em que os delírios de uma adolescente bailam com ela mesma, se inserindo em lendas que lhe encheram a infância, ainda próxima.

As imagens são lindas, na verdade ao lado de seus claros elementos de contos de fadas, foi o que mais me atraiu.

Vale muito a pena para quem, como eu, adora perfume de asinhas de seda, mesmo que elas não se mostrem.


Bisous.

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